IA já faz parte da rotina de 66,1% dos médicos ouvidos em pesquisa
Levantamento da MV destaca apoio à decisão clínica e aponta custo e integração com prontuários entre os obstáculos à adoção da tecnologia.
A inteligência artificial já é utilizada de forma regular ou ocasional por 66,1% dos médicos participantes da pesquisa “O Uso de Inteligência Artificial por Médicos no Brasil”, realizada pela MV. Entre os usuários da tecnologia, 56,6% relatam empregá-la no apoio à decisão clínica, em atividades como interpretação de exames, correlação de sintomas e sugestão de códigos da Classificação Internacional de Doenças, a CID.
Os resultados também expõe desafios para clínicas e hospitais: o custo de implantação ou assinatura foi apontado por 30,4% dos médicos como principal barreira à adoção, enquanto 22,3% mencionaram dificuldades de integração com prontuários e sistemas de gestão.
O levantamento foi realizado entre o segundo semestre de 2025 e o início de 2026. Ao todo, reuniu 196 participantes do ecossistema de saúde, dos quais 112 eram médicos em atuação ou formação, com participação das cinco regiões brasileiras. Os resultados descrevem esse grupo e não devem ser interpretados, sem informações adicionais sobre a representatividade da amostra, como uma estimativa de toda a categoria médica no país.
Apoio à decisão clínica aparece entre as principais aplicações
Entre os participantes que utilizam IA, o apoio à decisão clínica foi relatado por 56,6%. Esse percentual se refere ao grupo de usuários da tecnologia, e não ao total de 196 pessoas que responderam ao levantamento.
As aplicações citadas incluem tarefas relacionadas à interpretação de exames, associação entre sintomas e identificação de códigos da CID. O dado mostra que o uso relatado não está restrito a atividades administrativas: também alcança processos próximos ao raciocínio clínico.
Entretanto, a utilização não equivale a comprovação de eficácia. Uma pesquisa sobre hábitos e percepções não demonstra, por si só, que determinada ferramenta melhora a precisão diagnóstica, reduz eventos adversos ou produz melhores desfechos para pacientes.
Para interpretar os resultados, é importante separar três questões: quantos participantes usam IA, para quais atividades e quais evidências sustentam cada aplicação. O levantamento ajuda a compreender as duas primeiras, mas os benefícios clínicos precisam ser avaliados especificamente.
Custo e integração desafiam a adoção nas instituições
Os dois principais obstáculos destacados foram o custo, mencionado por 30,4% dos médicos, e a dificuldade de integração com sistemas existentes, apontada por 22,3%.
Para gestores, a combinação desses fatores sugere que a decisão de adotar IA não pode se limitar ao preço de uma licença. Também é necessário avaliar como a ferramenta se encaixa no fluxo de atendimento e nas plataformas já utilizadas.
Uma solução pode parecer acessível isoladamente, mas exigir etapas adicionais de cadastro, transferência manual de informações ou conferência dos resultados. Na avaliação de um projeto, essas exigências devem ser consideradas junto ao investimento financeiro.
A integração, portanto, não é apenas uma questão técnica. Ela faz parte da análise sobre como a tecnologia será utilizada pelos profissionais e de quais mudanças serão necessárias na rotina.
O que avaliar antes de contratar uma ferramenta de IA
A partir dos obstáculos identificados, clínicas e hospitais podem organizar a avaliação em torno de perguntas práticas:
- Qual problema assistencial ou operacional a solução pretende resolver?
- Como os dados entram na ferramenta e retornam ao sistema utilizado pela equipe?
- Haverá necessidade de duplicar registros ou transferir informações manualmente?
- Qual é o custo total, incluindo implantação, treinamento e suporte?
- Quem revisará as respostas e como serão tratadas as inconsistências?
- Quais indicadores permitirão avaliar os resultados?
Essas perguntas não são conclusões estatísticas da pesquisa. São critérios de gestão para transformar os desafios relatados em uma análise concreta de adoção.
Experiência com IA está associada a maior confiança
A pesquisa também encontrou diferença na percepção dos participantes: a confiança média nas ferramentas foi 26% maior entre médicos que utilizam IA regularmente do que entre aqueles que nunca experimentaram a tecnologia.
O resultado aponta uma associação entre experiência de uso e confiança, mas não permite afirmar que uma variável causou a outra. Profissionais mais confiantes podem utilizar mais a tecnologia; o uso também pode contribuir para mudar sua percepção.
Além disso, confiança declarada não é o mesma que desempenho comprovado. Para uma instituição, o interesse dos usuários deve ser acompanhado da avaliação dos limites da ferramenta, de sua adequação à atividade e dos resultados observados.
Disposição para investir não se concentra apenas nos mais jovens
Entre os médicos com seis a 20 anos de formação, 85,7% afirmaram estar dispostos a pagar por soluções de IA. Nesse grupo, o valor médio mensal informado foi de R$ 111.
O resultado indica interesse também entre profissionais que já acumularam experiência de trabalho. Contudo, disposição declarada para pagar não corresponde a contratação efetiva nem deve ser interpretada como orçamento médio de todo o mercado médico.
Para instituições e fornecedores, o dado ajuda a identificar interesse, mas não substitui a investigação das necessidades dos usuários ou a validação de um modelo de contratação.
Prioridades variam entre os setores público e privado
Segundo a divulgação do levantamento, profissionais da rede pública atribuíram maior importância à relação entre custo e retorno sobre o investimento. Na rede privada, ganharam destaque o treinamento e a comprovação de evidências científicas das ferramentas.
As diferenças reforçam a necessidade de considerar o contexto de cada serviço. Uma implementação pode exigir maior atenção à viabilidade financeira; outra, à capacitação da equipe ou à demonstração de que a aplicação atende ao problema proposto.
Essas prioridades não são excludentes. Custo, integração, treinamento e avaliação de resultados precisam ser discutidos em conjunto.
O que os números mostram e o que não permitem concluir
|
Indicador divulgado |
Resultado |
Como interpretar |
|
Uso regular ou ocasional de IA |
66,1% dos médicos participantes | Refere-se ao grupo pesquisado, não automaticamente a todos os médicos do Brasil. |
| Uso no apoio à decisão clínica | 56,6% dos usuários de IA |
A base é o grupo que utiliza a tecnologia, não a amostra total. |
|
Custo como principal barreira |
30,4% dos médicos | Expressa a dificuldade relatada pelos participantes. |
| Dificuldade de integração | 22,3% dos médicos |
Evidencia preocupação com a conexão aos sistemas existentes. |
|
Diferença de confiança média |
26% maior entre usuários regulares | Mostra associação entre os grupos, não causalidade nem ganho de precisão clínica. |
| Disposição para pagar no grupo com seis a 20 anos de formação | 85,7% |
Representa a intenção declarada de um subgrupo, não compra efetiva. |
Os indicadores foram divulgados em reportagens sobre a pesquisa da MV. Eles possuem bases e significados diferentes e não devem ser somados ou tratados como medidas equivalentes.
O que muda para médicos e gestores de saúde
O principal sinal do levantamento é a coexistência de interesse clínico e dificuldades de implementação. Ao mesmo tempo que os participantes relatam utilizar IA em tarefas próximas à assistência, apontam barreiras financeiras e de integração.
Para médicos, isso torna relevante conhecer não apenas as possibilidades, mas também as limitações das ferramentas utilizadas. Para gestores, a decisão envolve organizar responsabilidades, fluxos de informação, treinamento e critérios de avaliação.
No contexto da saúde digital e dos serviços de diagnóstico, é importante distinguir a execução de uma tarefa pela tecnologia da avaliação profissional que utiliza seu resultado. Uma resposta gerada, uma sugestão de código ou uma análise automatizada não devem ser confundidas com a conclusão de todo o processo assistencial.
O levantamento oferece um retrato da adoção entre os participantes. Para transformar esse interesse em um projeto institucional, a pergunta seguinte deve ser específica: qual aplicação será incorporada, para resolver qual problema e com quais critérios de acompanhamento?
Sobre a pesquisa
“O Uso de Inteligência Artificial por Médicos no Brasil” é a primeira edição de um levantamento da MV. A coleta ocorreu entre o segundo semestre de 2025 e o início de 2026, com 196 participantes do ecossistema de saúde, incluindo 112 médicos em atuação ou formação nas cinco regiões do país.
A presença de participantes de diferentes regiões não comprova, isoladamente, representatividade nacional. Os percentuais apresentados devem ser lidos como resultados do grupo pesquisado, respeitando a base utilizada em cada pergunta.
O estudo registra práticas, intenções e percepções. Seus resultados não substituem avaliações de segurança, eficácia ou impacto clínico de ferramentas específicas.




