Gestão de Clínicas e Hospitais

Rastreabilidade de medicamentos: o que é, como funciona no Brasil (SNCM) e como implementar em hospitais e clínicas

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pessoa segurando uma caixa branca de remédio e na outra mão segurando um tablet

A rastreabilidade de medicamentos é a capacidade de identificar, registrar e acompanhar cada medicamento ao longo de toda a cadeia, da fabricação à dispensação e, em níveis mais avançados, até a administração ao paciente por meio de dados padronizados e registros eletrônicos confiáveis.

No Brasil, a rastreabilidade de medicamentos está estruturada pelo Sistema Nacional de Controle de Medicamentos (SNCM), previsto na Lei nº 11.903/2009 e regulamentado por normas da Anvisa, como a RDC nº 319/2019, que trata de rastreabilidade, gestão de risco sanitário e controle de qualidade na cadeia de medicamentos.

Este conteúdo é direcionado a gestores de hospitais e clínicas (farmácia, suprimentos, qualidade, compliance e TI) e apresenta uma abordagem prática: por onde começar, quais dados precisam existir, quais processos mudam e quais indicadores acompanhar para operar com segurança e conformidade.

Em resumo: rastreabilidade de medicamentos é garantir visibilidade, controle e evidência sobre onde cada medicamento esteve, para onde foi, quem manipulou e em que condições, reduzindo riscos sanitários, perdas e falhas assistenciais.

O que é rastreabilidade de medicamentos (na prática)

Na rotina hospitalar e ambulatorial, rastrear medicamentos significa conseguir responder com rapidez e segurança a perguntas como:

  • De onde veio: fabricante, distribuidor, documento fiscal, lote e validade.
  • Onde está: estoque central, satélite, unidade assistencial ou carrinho de emergência.
  • O que aconteceu: recebimento, armazenamento, fracionamento, dispensação, devolução ou descarte.
  • Para quem foi: setor, profissional ou paciente (quando há rastreio até a administração).
  • Quando e por quem: data, hora e responsável por cada evento.

Essa linha do tempo estruturada é o que viabiliza auditorias, acelera recalls por lote, investiga eventos adversos e reduz perdas operacionais.

SNCM e a rastreabilidade de medicamentos no Brasil

O SNCM (Sistema Nacional de Controle de Medicamentos) foi criado para viabilizar a rastreabilidade de medicamentos em âmbito nacional, com base em identificação padronizada e registro eletrônico de eventos ao longo da cadeia farmacêutica.

Para hospitais e clínicas, o SNCM vai além do compliance regulatório. Ele se conecta diretamente a:

  • Segurança do paciente
  • Controle de qualidade e risco sanitário
  • Eficiência logística e financeira

Por que a rastreabilidade de medicamentos importa para a gestão de saúde

  • Reduz risco de falsificação, desvio e entrada de produtos irregulares.
  • Melhora o controle de lote e validade, diminuindo perdas por vencimento.
  • Facilita auditorias internas, externas e fiscalizações.
  • Acelera ações de bloqueio e recall.
  • Aumenta a acurácia do inventário e a confiabilidade dos dados.

Veja mais: Teleconsulta farmacêutica

 

RDC 319/2019: impactos da rastreabilidade no dia a dia

A RDC nº 319/2019, da Anvisa, reforça que a rastreabilidade de medicamentos deve estar associada a:

  1. Gestão de risco sanitário, considerando desvios, roubos, falsificação e falhas de integridade.
  2. Boas práticas e controle de qualidade nos processos logísticos.
  3. Evidência documental e governança, permitindo resposta rápida a incidentes.

Na prática, não basta “ter um sistema”. É necessário processo definido, registros confiáveis e auditoria contínua.

Quais dados são essenciais para a rastreabilidade de medicamentos

Para que a rastreabilidade funcione, é fundamental padronizar os dados capturados em cada movimentação.

Dados mínimos recomendados

  • Identificação do produto
  • Fabricante ou detentor do registro
  • Lote
  • Validade
  • Quantidade e unidade
  • Localização
  • Tipo de evento
  • Data, hora e operador

Em níveis mais avançados (administração ao paciente)

  • Identificação do paciente
  • Vínculo com prescrição
  • Profissional responsável
  • Dose e horário de administração

Fluxo completo da rastreabilidade: onde os hospitais perdem o controle

1. Recebimento

Conferência de item, lote, validade e quantidade, com registro de divergências e quarentena quando necessário.

2. Armazenamento

Endereçamento, controle FEFO e evidência de condições especiais (cadeia fria, controlados).

3. Fracionamento e unitarização

Ponto crítico: manter o vínculo do medicamento fracionado com seu lote e validade originais.

4. Dispensação

Registro vinculado à prescrição ou solicitação, com rastreio de devoluções.

5. Administração ao paciente (maturidade avançada)

Integra rastreabilidade logística à segurança assistencial, apoiando os “5 certos”.

6. Devoluções, perdas e descarte

Registro padronizado do motivo, responsável e impacto no estoque.

Como implementar rastreabilidade de medicamentos em hospitais e clínicas

Passo 1 – Defina um escopo inicial inteligente

Priorize medicamentos de alto custo, alto risco ou com maior índice de perdas.

Passo 2 – Padronize cadastros e dados mestres

Descrições inconsistentes inviabilizam relatórios e auditorias.

Passo 3 – Desenhe eventos e regras de registro

Defina quando lote e validade são obrigatórios e como tratar exceções.

Passo 4 – Escolha tecnologia alinhada ao processo

ERP, HIS, WMS, leitores 2D e integração com prescrição devem funcionar de forma coordenada.

Passo 5 – Treine equipes e formalize POPs

Treinar processo é tão importante quanto treinar sistema.

Passo 6 – Monitore indicadores e feche lacunas

Rastreabilidade sem KPI se degrada rapidamente.

Indicadores-chave de rastreabilidade de medicamentos

  • Acurácia de inventário
  • Perdas por vencimento
  • % de movimentações com lote e validade registrados
  • Tempo de rastreio por lote
  • Divergências por tipo de evento
  • Incidentes de cadeia fria

Principais erros na rastreabilidade de medicamentos (e como evitar)

  • Querer rastrear tudo de uma vez
  • Cadastro inconsistente
  • Fracionamento sem vínculo de lote
  • Exceções sem regra clara
  • Falta de auditoria e indicadores

Rastreabilidade de medicamentos e saúde digital

A rastreabilidade de medicamentos é, essencialmente, um problema de dados confiáveis ao longo do cuidado. Quando processos logísticos se integram a prescrição, prontuário e governança digital, a instituição alcança rastreabilidade ponta a ponta fortalecendo segurança do paciente, compliance e eficiência operacional.

Conclusão

Implementar rastreabilidade de medicamentos não é apenas atender a uma exigência regulatória. Trata-se de estruturar processos, dados e governança para reduzir riscos, evitar perdas e proteger o paciente em escala.

Hospitais e clínicas que tratam a rastreabilidade como um projeto contínuo e não apenas como tecnologia constroem bases sólidas para qualidade assistencial, auditoria eficiente e maturidade digital sustentável.

Perguntas Frequentes (FAQ)

 

O que é rastreabilidade de medicamentos?

É a capacidade de identificar e acompanhar medicamentos ao longo de toda a cadeia, registrando dados como lote, validade, origem, destino e eventos logísticos.

O SNCM é obrigatório para hospitais e clínicas?

O SNCM estrutura a rastreabilidade no Brasil. As instituições devem atender às normas da Anvisa, especialmente a RDC 319/2019, demonstrando controle, processos e evidências.

Rastreabilidade exige tecnologia específica?

Não necessariamente uma única tecnologia, mas exige sistemas capazes de registrar eventos, manter vínculo de lote/validade e gerar auditoria e relatórios confiáveis.

Até onde o hospital deve rastrear o medicamento?

O mínimo é até a dispensação. Em níveis mais avançados, a rastreabilidade se estende até a administração ao paciente, reforçando a segurança assistencial.

Redação

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