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Medicina de família e telemedicina: O fortalecimento do vínculo na atenção primária

6 min. de leitura

mãe e filho em ambiente de casa em atendimento via telemedicina com médica

A Medicina de Família e Comunidade (MFC) é a especialidade do vínculo. Seu olhar vai além dos sintomas: enxerga o paciente como indivíduo inserido em um contexto familiar e social. Tradicionalmente atrelada à presença física na Atenção Primária à Saúde (APS), essa abordagem ganhou uma nova aliada, a telemedicina não para distanciar a relação, mas para expandi-la, garantindo que o cuidado contínuo ultrapasse barreiras geográficas e estruturais. 

O crescimento da especialidade e a necessidade de expansão

A valorização da Atenção Primária tem impulsionado a Medicina de Família no Brasil. O número de especialistas na área cresceu 171% (cento e setenta e um) por cento na última década (1). Apesar desse avanço, a distribuição desigual de médicos pelo território nacional ainda representa um desafio para a universalização do acesso. 

É nesse hiato que a telemedicina se insere como ferramenta estratégica, permitindo que a capilaridade da especialidade alcance populações antes desassistidas. A regulamentação permanente da telessaúde, por meio da Lei nº 14.510/2022, conferiu segurança jurídica para que médicos de família integrassem o atendimento remoto à prática diária (2). 

Resolutividade que transforma o sistema

A força da Medicina de Família aliada à telemedicina reside na sua alta capacidade de resolução. Um estudo publicado em 2025 revelou que o uso da telessaúde no SUS resolveu até noventa e oito vírgula sete por cento dos casos na atenção básica, sem encaminhamentos presenciais secundários (3). 

O impacto nas filas de espera é direto. O tempo médio para atendimento especializado via telemedicina foi de apenas sete dias, um contraste com as longas esperas do modelo tradicional e significativamente inferior ao teto de dezoito semanas recomendado pelo sistema britânico (3). 

Mais de setenta por cento dessas consultas foram primeiras avaliações, demonstrando que a tecnologia atua como porta de entrada eficaz e resolutiva. 

O manejo das doenças crônicas

O acompanhamento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) é um dos pilares da Medicina de Família, e é justamente nessa área que a telemedicina demonstra seu maior valor. A literatura confirma que o telemonitoramento melhora a adesão ao tratamento e reduz hospitalizações (4). No SUS, a abordagem remota provou ser excepcionalmente eficaz para doenças cardiovasculares e diabetes (3). 

A percepção do paciente

Contrariando a premissa de que a tecnologia esfriaria a relação médico-paciente, a aceitação tem sido majoritariamente positiva. O relatório State of Telemedicine de 2024 aponta que: 

  •       Oitenta e quatro por cento dos médicos relatam aumento na satisfação dos pacientes;
  •       Oitenta e cinco por cento dos pacientes consideram que o atendimento remoto resulta em cuidado equivalente ou superior ao presencial;
  •       Sessenta e quatro por cento dos médicos relatam melhor manejo de doenças crônicas com o uso da telemedicina (5).

Para o paciente, ser atendido na UBS próxima à sua casa ou no próprio domicílio traduz-se em conforto, economia e um cuidado que se adapta à sua realidade. 

Conclusão

A união entre a Medicina de Família e a telemedicina representa um dos avanços mais significativos para a saúde pública e suplementar. Ao combinar a visão integral do médico de família com a escalabilidade da saúde digital, cria-se um modelo assistencial mais justo, ágil e centrado no paciente. A tecnologia, quando guiada pela empatia e pelo rigor clínico, constrói pontes garantindo que o cuidado chegue exatamente onde é mais necessário. 

 

Referências 

1       Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). Demografia Médica 2020 e a Medicina de Família e Comunidade [Internet]. Rio de Janeiro: SBMFC; 2020 [citado 2026 jul 6]. Disponível em: https://sbmfc.org.br/noticias/demografia-medica-2020-e-a-medicina-de-familia-e-comunidade/

2       Brasil. Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022. Autoriza e disciplina a prática da telessaúde em todo o território nacional. Diário Oficial da União. 28 dez 2022.

3       Carrer FCA, et al. Assistência médica especializada na atenção primária por meio da telemedicina no Nordeste do Brasil: estudo descritivo, Rio Grande do Norte, 2022-2023. Epidemiol Serv Saúde [Internet]. 2025 [citado 2026 jul 6];34:e20240256. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S2237-96222025v34e20240256.pt

4       Mahdavi S, et al. The use of telemedicine in family medicine: a scoping review. PMC [Internet]. 2025 [citado 2026 jul 6]. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11907889/

5       Doximity. 2024 State of Telemedicine Report [Internet]. São Francisco: Doximity; 2024 [citado 2026 jul 6]. Disponível em: https://www.doximity.com/reports/state-of-telemedicine-report/2024

Kamila Nunes

Especialista em Medicina Legal e Perícia Médica pela AMB, RQE 10.553 | Especialista em Medicina de Família e Comunidade, RQE 7323 | CRMPB 9170

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