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Médicas e mães: a saúde digital como ferramenta no equilíbrio entre carreira e maternidade

7 min. de leitura

mãe abraçando filho e sorrindo em espaço residencial

Médicas que também são mães conhecem bem a sensação de viver entre dois mundos que exigem entrega total. A medicina não espera, mas a maternidade também não. Durante muito tempo, conciliar essas duas realidades significou abrir mão de algo — da presença em casa, do avanço na carreira ou, não raro, da própria saúde mental. A telemedicina surgiu como uma aliada real para transformar essa equação, oferecendo flexibilidade de horários, redução de deslocamento e autonomia sobre a rotina de trabalho.

Um cenário que pede mudança

Em 2025, o Brasil atingiu um marco histórico: pela primeira vez, as mulheres passaram a representar a maioria dos médicos em atividade no país (1). Essa conquista, no entanto, coexiste com um paradoxo ainda não resolvido, a estrutura da prática médica continua desenhada para profissionais sem responsabilidades domésticas, penalizando desproporcionalmente aquelas que decidem ser mães.

Os dados são contundentes. Entre médicas, cerca de 75% relatam ter adiado a decisão de ter filhos em razão das exigências da formação e da prática clínica (2). Aproximadamente 40% das profissionais reduzem a carga horária ou abandonam a medicina nos primeiros seis anos após a residência (3), uma perda de talentos que o sistema de saúde não pode se dar ao luxo de ignorar. Além disso, 72% das médicas reconhecem a dificuldade em equilibrar  trabalho e vida familiar (4).

Diante desse cenário, a pergunta que se impõe não é se a medicina precisa se adaptar à dupla jornada dessas mulheres, mas como isso pode ser possível.

A telemedicina como resposta concreta

A saúde digital oferece uma resposta prática e imediata a esse desafio. A telemedicina deixou de ser uma solução emergencial de pandemia para se consolidar como um modelo de trabalho viável, seguro e eficiente.

Para a médica que é mãe, os ganhos mais significativos incluem:

  •       Autonomia sobre a própria agenda, organizando teleconsultas e emissão de laudos em horários compatíveis com a rotina familiar;
  •       Eliminação do deslocamento diário, devolvendo duas a três horas que se convertem em presença familiar, autocuidado ou atualização científica;
  •       Possibilidade de retorno gradual após a licença-maternidade, sem impor uma separação brusca nos primeiros meses de vida da criança.

Trabalhar de forma inteligente é poder levar o filho à escola pela manhã e iniciar os atendimentos logo depois. É não precisar escolher entre a reunião de pais e o compromisso profissional.

Médicas lideram a adoção da telemedicina

Não é coincidência que as mulheres estejam à frente da adoção de ferramentas de telessaúde. Estudos indicam que as Médicas utilizam plataformas de elemedicina significativamente mais do que os seus colegas homens. Essa preferência reflete uma necessidade objetiva: quando se acumula a responsabilidade clínica com a carga mental da maternidade, qualquer ferramenta que ofereça controle sobre o tempo se torna indispensável.

A literatura científica reforça essa percepção. 44% dos médicos apontam que uma agenda mais gerenciável seria a principal medida para aliviar o esgotamento profissional (5). A telemedicina entrega exatamente isso, não como um benefício abstrato, mas como uma mudança estrutural na forma de exercer a profissão.

O que é preciso para começar

Um dos aspectos mais atraentes da telemedicina é justamente a simplicidade do aparato necessário para iniciar. Para atender com qualidade e segurança, a médica precisa basicamente de:

  •       Computador ou notebook com câmera e microfone funcionais;
  •       Conexão de internet estável;
  •       Ambiente reservado que garanta privacidade e sigilo durante a consulta;
  •       Acesso a uma plataforma de Telemedicina em conformidade com as normas de proteção de dados;
  •       Certificado digital, para assinatura eletrônica de prontuários, receitas e atestados com validade jurídica.

A profissional também deve observar a legislação vigente, em especial a Lei nº 14.510/2022, que regulamenta a telemedicina no Brasil, as resoluções do Conselho Federal de Medicina e as normas da Lei Geral de Proteção de Dado s (LGPD), garantindo que o atendimento remoto siga os mesmos padrões éticos e legais do presencial.

Não há necessidade de grandes investimentos em infraestrutura física, o consultório pode ser um cômodo da própria casa, desde que adequado ao atendimento. Essa facilidade é o que torna a telemedicina tão compatível com a realidade de médicas que são mães: a profissional não precisa sair de casa para exercer a medicina com excelência.

Considerações práticas

Uma dúvida recorrente entre profissionais que se tornam mães diz respeito à possibilidade de atuar em telemedicina ainda durante a licença-maternidade. A resposta é positiva, desde que respeitadas as normas trabalhistas aplicáveis ao vínculo da profissional. Muitas médicas optam por retomar atividades de forma gradual e autônoma, o que permite manter a conexão com a carreira sem comprometer o período de adaptação com o recém-nascido.

É igualmente importante compreender que a telemedicina não substitui o trabalho presencial ela o complementa. A profissional pode combinar as duas modalidades conforme sua especialidade, seu momento de vida e suas preferências.

Conclusão

A telemedicina representa mais do que uma inovação tecnológica: é uma mudança de paradigma nas relações de trabalho em saúde. Para médicas que são mães, ela oferece o que o modelo tradicional nunca conseguiu entregar, a possibilidade real de construir uma carreira de excelência sem abrir mão da presença na vida dos filhos. Valorizar e reter essas profissionais é uma responsabilidade do sistema de saúde como um todo, e a saúde digital é um caminho concreto para tornar isso realidade.

 

Referências

  1. Scheffer M (coordenador). Demografia Médica no Brasil 2025. Brasília: Ministério da Saúde; Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 2025.
  2. Stentz NC, Griffith KA, Perkins E, Jones RD, Jagsi R. Fertility and childbearing among American female physicians. J Womens Health (Larchmt). 2016;25(10):1059-65.
  3. Pin JA, Ogunyemi D. Addressing the doctor shortage and assisting women physicians: a win-win. Proc (Bayl Univ Med Cent). 2024;37(5):894-6.
  4. American Medical Association. AMA Women Physicians Study [Internet]. Chicago: AMA; 2024 [citado 2026 mai 4]. Disponível em: https://www.ama-assn.org/system/files/i24-wps-women-physicians.pdf
  5. Medscape. Physician Burnout & Depression Report 2023 [Internet]. New York: WebMD LLC; 2023 [citado 2026 mai 4]. Disponível em: https://www.medscape.com/slideshow/2023-lifestyle-burnout-6016058
Kamila Nunes

Especialista em Medicina Legal e Perícia Médica pela AMB, CRMPB 9170/ RQE 10.553

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