Médicos

Entre plantões, arritmias e duas Marias: como a telemedicina transformou minha vida

6 min. de leitura

mãe sorrindo ao centro sendo beijada pelas duas filhasDurante muitos anos, achei que ser uma boa médica significava estar sempre dentro do hospital. Plantões intermináveis, madrugadas sem dormir, correria entre UTI, enfermaria e emergência, decisões rápidas e responsabilidade constante faziam parte da rotina.

Essa trajetória me ensinou muito. Atuei como intensivista, fui chefe preceptora hospitalar e vivi situações que transformam qualquer profissional de saúde. Aprendi sobre técnica, agilidade e sobre a importância de agir rápido diante de situações críticas. Aprendi também sobre fragilidade, perdas e resistência.

Mas a medicina me ensinou outra coisa importante: o tempo passa rápido demais.

Enquanto eu cuidava de tantos pacientes, minhas filhas estavam crescendo. E foi nesse momento que comecei a perceber uma dor silenciosa: a sensação de estar perdendo momentos que nunca mais voltariam.

Nenhuma carreira, por mais apaixonante que seja, substitui o brilho no olhar de um filho chamando pela mãe.

Sou mãe de duas meninas — minhas “Duas Marias” — e foi por elas que comecei a enxergar a medicina de outra forma.

Quando a medicina precisou se reinventar

Durante muitos anos, a telemedicina parecia algo distante para boa parte dos profissionais de saúde. Um conceito moderno, tecnológico e pouco presente na prática clínica do dia a dia.

A pandemia da COVID-19 mudou esse cenário.

Com hospitais lotados, isolamento social e dificuldades de acesso à saúde, a medicina precisou encontrar novas formas de cuidar das pessoas sem interromper o atendimento.

Foi nesse contexto que a telemedicina deixou de ser apenas tecnologia e passou a representar acolhimento, acesso e continuidade do cuidado.

Consultas, exames, orientações e laudos começaram a conectar pacientes e profissionais mesmo a quilômetros de distância. E foi exatamente nesse momento que percebi que a tecnologia também poderia transformar minha própria vida.

Leia também: Telemedicina para mães

A descoberta de um novo equilíbrio

A telemedicina me permitiu unir duas paixões: a cardiologia e minhas filhas.

Descobri que era possível continuar trabalhando com responsabilidade, qualidade técnica e compromisso com os pacientes, mas de uma forma mais equilibrada e sustentável.

Continuo fazendo aquilo que amo todos os dias:

  • estudando arritmias;
  • interpretando exames;
  • emitindo laudos cardiológicos;
  • acompanhando pacientes;
  • ajudando no diagnóstico de doenças cardiovasculares.

Mas agora consigo viver algo que antes parecia impossível: acompanhar minhas filhas crescendo.

Poder almoçar junto. Ouvir histórias da escola. Participar de momentos simples da rotina. Estar presente em pequenas situações que, para uma mãe, significam tudo.

Acompanhar uma febre. Escutar um “mamãe”. Ver um sorriso sem sentir que estou sempre correndo contra o relógio.

O impacto humano da telemedicina

Quando falamos em telemedicina, muita gente pensa apenas em tecnologia. Mas, para mim, o maior impacto foi humano.

A telemedicina trouxe presença.

Presença de mães mais próximas dos filhos. Presença do cuidado em regiões distantes. Presença da saúde chegando onde antes existiam barreiras geográficas e dificuldades de acesso.

O Brasil é um país enorme. Existem cidades pequenas, áreas afastadas e famílias que, durante anos, enfrentaram dificuldades para conseguir acesso rápido a especialistas e exames.

E quem mais sente esse impacto muitas vezes é a mãe.

É ela quem pega estrada com o filho doente. Quem enfrenta filas. Quem vive a angústia de não conseguir atendimento rapidamente.

A telemedicina começou a reduzir essas distâncias.

Hoje, uma criança do interior pode ser avaliada por um especialista sem precisar viajar horas. Uma família consegue receber orientação médica mais rápido. Um exame pode ser laudado com agilidade, trazendo respostas e alívio em menos tempo.

Além disso, a digitalização dos exames trouxe benefícios importantes para a rotina médica:

  • mais agilidade;
  • menos burocracia;
  • redução de papel;
  • maior organização;
  • integração entre equipes;
  • acesso mais rápido aos resultados.

Mas, sinceramente, o maior avanço não foi tecnológico.

Foi perceber que é possível cuidar mesmo à distância.

Tecnologia e humanização podem caminhar juntas

Existe uma ideia equivocada de que a tecnologia afasta o lado humano da medicina. Minha experiência mostrou exatamente o contrário.

A telemedicina me ensinou que inovação e acolhimento podem caminhar juntos.

É possível usar tecnologia para ampliar acesso, acelerar diagnósticos e melhorar a experiência do paciente sem perder empatia, escuta e cuidado.

Talvez por isso eu enxergue tantas semelhanças entre maternidade e telemedicina. Ambas exigem adaptação, sensibilidade e presença. Ambas tentam reduzir sofrimentos e aproximar pessoas.

Hoje continuo apaixonada pela medicina, pela cardiologia e pelo estudo das arritmias. Continuo me emocionando com cada exame, cada diagnóstico e cada vida que posso ajudar.

Mas agora também consigo viver o papel mais importante da minha vida: ser mãe das minhas Duas Marias.

E talvez esse seja o verdadeiro significado do progresso: não apenas trabalhar mais, mas conseguir estar presente na vida das pessoas que amamos.

Porque, no fim, toda evolução só faz sentido quando aproxima corações.

 

Dra. Fernanda Lima Ferreira

Médica Cardiologista • Arritmologista • Especialista em Métodos Gráficos Cardiológicos

Residência Médica em Clínica Médica e Cardiologia – Hospital Regional de Presidente Prudente/SP

Atuação em Telemedicina Cardiológica, ECG, Holter, MAPA e Arritmias Complexas

Professora, Palestrante e Autora do livro Desvendando o Ritmo Cardíaco

Empreendedora na área da saúde e apaixonada pela união entre tecnologia, medicina e humanização do cuidado

Mãe das “Duas Marias”

Redação

Redação é o time de especialistas em conteúdo da Portal Telemedicina, responsável por criar e compartilhar informações atualizadas e relevantes sobre tecnologia em saúde, telemedicina e inovações no setor.

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