Gestão de Clínicas e Hospitais

Contrato de prestação de serviços médicos: cláusulas essenciais, riscos e checklist prático

7 min. de leitura

médico em pé de máscara segurando prancheta

Um contrato de prestação de serviços médicos bem estruturado vai muito além da formalização jurídica. Ele é um instrumento central de gestão de risco, organização operacional e segurança assistencial, especialmente em cenários com médicos autônomos, PJ, plantões, remuneração variável e serviços digitais como telemedicina e telediagnóstico.

Nota de conformidade: este conteúdo é informativo e não substitui assessoria jurídica especializada.

O que é um contrato de prestação de serviços médicos (e quando utilizar)

O contrato de prestação de serviços médicos é utilizado quando a relação não configura vínculo empregatício, sendo comum nos seguintes cenários:

  • Médicos autônomos ou PJ atuando em clínicas e hospitais
  • Plantões presenciais ou remotos
  • Atendimento sob demanda
  • Remuneração por produção, hora, laudo ou plantão
  • Telemedicina, teleconsulta, telediagnóstico e laudos à distância

Ele é essencial sempre que houver:

  • Atuação recorrente
  • Risco assistencial
  • Circulação de dados sensíveis de saúde
  • Exposição jurídica para ambas as partes

Contrato de prestação de serviços médicos gera vínculo empregatício?

Essa é uma das principais dúvidas associadas ao tema.

O contrato, por si só, não impede o reconhecimento de vínculo trabalhista. Mas, o que caracteriza vínculo é a presença simultânea de:

  • Subordinação
  • Pessoalidade
  • Habitualidade
  • Onerosidade

Principais fatores de risco

  • Controle rígido de jornada como “ponto”
  • Exclusividade prática
  • Comando direto sobre a execução do ato médico
  • Metas impostas com punição operacional

Boa prática contratual

O contrato deve deixar claro que:

  • A instituição define protocolos, fluxos e padrões de segurança
  • O médico mantém autonomia técnica plena no ato médico
  • Não há subordinação hierárquica típica da CLT

Antes de redigir o contrato: identifique o cenário correto

A forma do contrato depende diretamente do modelo de relação:

  • Médico CLT: contrato de trabalho (não é o foco deste guia)
  • Médico autônomo ou PJ: contrato de prestação de serviços médicos
  • Empresa terceirizada com equipe médica: contrato B2B com responsabilidade em cadeia
  • Telemedicina/telediagnóstico: contrato de serviços médicos com cláusulas digitais reforçadas

Errar nessa definição é uma das maiores causas de litígios e passivos ocultos.

Cláusulas essenciais do contrato de prestação de serviços médicos

1. Identificação e qualificação das partes

Inclua:

  • Nome completo / razão social
  • CPF ou CNPJ
  • CRM e RQE (quando aplicável)
  • Endereço, foro e responsável legal

Diferencial: prever anexos com documentação obrigatória e recertificação periódica.

2. Objeto e escopo do serviço (ponto crítico)

Descreva com precisão:

  • Quais serviços serão prestados (consultas, plantões, laudos, teleinterconsulta etc.)
  • Onde (presencial, remoto ou híbrido)
  • O que não está incluído no contrato

Escopo mal definido é a principal fonte de conflito contratual.

3. Autonomia técnica e modelo de relação

Cláusula indispensável para reduzir risco trabalhista:

  • Reconhecimento da autonomia técnica do médico
  • Separação clara entre diretrizes institucionais e ato médico
  • Ausência de subordinação hierárquica direta

4. Agenda, escala, cobertura e substituição

Bloco operacional frequentemente negligenciado:

  • Regras de escala e trocas
  • Política de faltas
  • Substituição em plantões
  • Cobertura em urgências

Importante: registrar presença e produção sem caracterizar controle de jornada típico da CLT.

5. SLA e tempo de resposta (essencial em telemedicina)

Para serviços digitais, detalhe:

  • Prazo padrão e prazo de urgência
  • Critérios objetivos de urgência
  • Janelas de cobertura (24/7, noturno, finais de semana)
  • Penalidades e plano de contingência

6. Remuneração, faturamento e tributos

Defina claramente:

  • Modelo de pagamento (plantão, hora, produção, laudo)
  • Regras de glosa e auditoria
  • Emissão de NF ou RPA
  • Responsabilidades fiscais e previdenciárias

7. Sigilo, confidencialidade e prontuário

Inclua:

  • Sigilo profissional
  • Uso e guarda do prontuário
  • Regras de acesso, auditoria e custódia das informações

8. LGPD e dados sensíveis (não pode ser genérico)

O contrato deve:

  • Definir papéis (controlador e operador)
  • Prever medidas técnicas e administrativas
  • Estabelecer resposta a incidentes
  • Regular suboperadores e logs de acesso

Na telemedicina, esse bloco é absolutamente crítico.

9. Qualidade, auditoria e melhoria contínua

Cláusula de alto valor estratégico:

  • Padrões mínimos de qualidade
  • Auditoria clínica
  • Segunda leitura (quando aplicável)
  • Treinamento e onboarding em protocolos

10. Responsabilidade civil e suporte jurídico

Boa prática:

  • Diferenciar falha estrutural da falha técnica
  • Prever suporte jurídico e/ou seguro de RC
  • Reforçar que, em regra, a obrigação médica é de meio

11. Vigência, rescisão e transição assistencial

Evite riscos assistenciais:

  • Aviso prévio
  • Transição de agenda
  • Entrega de pendências
  • Rescisão por justa causa bem delimitada

Telemedicina e telediagnóstico: cláusulas adicionais indispensáveis

  • Disponibilidade e continuidade do serviço
  • Integração com prontuário, PACS e LIS
  • Interoperabilidade
  • Rastreabilidade e logs completos de acesso

Esses pontos são decisivos para conformidade, auditoria e escalabilidade.

Checklist de contratação (onboarding)

  1. Documentos profissionais (CRM, RQE)
  2. Documentos PJ/autônomo
  3. Compliance e LGPD
  4. Credenciais e acessos
  5. Escala, SLA e contingência

Erros comuns que geram passivo jurídico

  • Contrato genérico sem aderência à operação real
  • Médico “autônomo” com sinais claros de vínculo
  • LGPD superficial
  • Ausência de auditoria e critérios de qualidade
  • Rescisão sem transição assistencial

Conclusão

Um contrato de prestação de serviços médicos bem estruturado não é apenas um requisito jurídico ele é um instrumento de governança, que protege a instituição, o médico e, principalmente, a segurança assistencial do paciente.

Para clínicas, hospitais e plataformas de saúde, contratos genéricos ou desalinhados da operação real tendem a gerar passivos trabalhistas, conflitos de qualidade, falhas de cobertura e riscos relacionados à LGPD, especialmente em modelos que envolvem telemedicina e telediagnóstico. Por outro lado, contratos claros, com escopo definido, regras operacionais objetivas, SLAs, auditoria clínica e responsabilidades bem delimitadas aumentam a previsibilidade, reduzem litígios e sustentam o crescimento da operação.

Ao tratar o contrato como parte da estratégia e não como um simples modelo gestores de saúde elevam o nível de profissionalismo da instituição, fortalecem a relação com o corpo clínico e constroem uma base sólida para expansão, inovação e conformidade regulatória no longo prazo.

Redação

Redação é o time de especialistas em conteúdo da Portal Telemedicina, responsável por criar e compartilhar informações atualizadas e relevantes sobre tecnologia em saúde, telemedicina e inovações no setor.

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